Análise
da evolução emocional de Temperance Brennan até o fim da 3a
temporada
Segundo o Almanaque dos
Seriados (Paulo Gustavo Pereira, Ediouro, 2008), Arquivo X foi o primeiro programa com um casal
de protagonistas a inverter as características psicológicas de cada
um. Normalmente, o homem simboliza a racionalidade e o pragmatismo,
enquanto a mulher representa a emoção, a intuição e a fé.
Pode-se dizer, então, que Bones, um seriado policial, segue essa
diretriz. O agente Seeley Booth representa a emoção e a antropóloga
Temperance Brennan, a razão.
A Dra. Brennan, também
chamada de Bones (“Ossos”), começa o seriado como uma cientista
super racional, que chega a interpretar o que os outros dizem ao pé
da letra.
O convívio com o
agente Booth ajuda-a a assimilar as nuances da psicologia humana, e
por consequência dos relacionamentos pessoais.
No episódio de
estréia, ela poderia passar por um bloco de gelo emocional a
serviço da Justiça. Ao longo da série, a conhecemos um pouco
melhor e descobrimos os traumas que a tornaram emocionalmente
distante: o desaparecimento dos pais, ser abandonada pelo irmão e a
passagem pelo sistema de adoção norte-americano.
O momento da virada (ou
começo do degelo) é no episódio em que a antropóloga reencontra
seu mentor e ex amante, descobrindo que terá que confrontá-lo no
tribunal. Devido à linguagem técnica e aparente frieza com que
depõe, em contraponto com o charme e simpatia de seu professor, a
promotoria pode perder o julgamento.
O agente Booth conta ao
promotor sobre o desaparecimento dos pais e a acusação usa isso
para humanizar a antropóloga, estratégia que dá certo. Mas ao
custo do rompimento da amizade entre o professor e sua aluna, devido
a um comentário infeliz deste (que poderia ser verdadeiro em relação
a relações pessoais, mas não quanto a sua conduta profissional). E
a primeira emoção demonstrada claramente é a raiva.
A partir daí,
Temperance Brennan passa a demonstrar mais seus sentimentos. Na
série, ela começa a sorrir, chorar (como quando ela mata uma
pessoa pela primeira vez) e a brincar (em um episódio de Dia das
Bruxas, Temperance se fantasia de Mulher Maravilha e faz o rodopio
característico da personagem no final).
A descoberta dos ossos
de sua mãe inicia um processo de busca pelo resto de sua família. A
dra. Brennan tem oportunidade de se reconciliar com seu irmão,
Russ. Surgem revelações no caminho, como a de que seus pais são
criminosos procurados e o nome verdadeiro dela e outro
Quando finalmente
Temperance encontra o pai, a mágoa por ter sido abandonada fala mais
alto durante um longo período, no meio do qual Max Keenan se deixa
prender para ficar próximo da filha.
Apesar de todo esse
processo de desabrochar das emoções, a Dra. Brennan tem um lado
racional muito forte, caracterizado pelo bordão "antropologicamente
falando...", onde ela se põe a margem do cenário que descreve,
especialmente se ela se sentir emocionalmente envolvida.
A parceria
Brennan-Booth
O agente especial
Seeley Booth não chega a ser um homem emotivo no sentido piegas do
termo. Profissionalmente, ele tem o que se pode chamar de
conhecimento da natureza humana e das técnicas de interrogatório.
Pessoalmente, ele tem
um vínculo emocional muito forte com seu filho, Parker. Além disso,
Booth constrói uma relação de parceria com Brennan, apesar de suas
idiossincrasias.
Ele a ajuda a
compreender e expressar o emaranhado de sentimentos e emoções
humanos. Sua relação evolui de uma parceria puramente profissional
para a amizade, e daí para o relacionamento amoroso.
Já a partir da
primeira temporada surgem sinais disso, como as insinuações da
amiga e colega de trabalho, Angela Montenegro, e de diversos
personagens que aparecem ao longo da série, perguntando se ambos
são namorados ou fizeram sexo. A ênfase com que ambos negam o
envolvimento emocional só ressalta o quanto estão atraídos um pelo
outro, num nível ainda subconsciente.
Quando o FBI ameaça
desfazer a parceria, os dois são obrigados a fazer um tipo de
terapia de casal ou "terapia de parceiros", devido a prisão
do pai de Temperance por Seeley.
O terapeuta, Dr.
Sweets, os faz responder questionários e participar de um encontro
de casais.
No primeiro, Bones
esconde de seu parceiro o preenchimento, como um aluno que que quer
impedir que o colega cole dele. Ao final, eles descobrem que
complementam um ao outro (como o público já percebeu).
O episódio do encontro
de casais não acaba bem para o psicólogo, mas ajuda a estreitar os
laços já existentes entre a dupla.
No especial de Natal da
3a temporada, Max Keenan quer passar o feriado com a família. A Dra.
Brennan tem outros planos. Enquanto isso, o agente Booth esta
chateado porque irá passar o Natal sem o filho. Entre idas e vindas,
o agente do FBI consegue passar o Natal com Parker e a antropóloga
resolve passá-lo com a família, não importando que o pai e o
irmão estejam na prisão.
A árvore natalina,
proibida no presídio, é levada por Seeley Booth e seu filho ate em
frente da janela onde esta sendo realizada a festa dos
Brennan-Keenan. Ela simboliza, para a dupla, um buquê de flores
oferecido por um namorado.
Após esse episódio,
Temperance, além de sorrir, passa a rir. Mesmo depois de analisar
sua evolução emocional, para mim foi um choque, independente das
circunstâncias. Chega-se a pensar que ela estivesse sob o efeito do
vazamento do gás do riso ao se aproximar do esqueleto. A esse
choque, provavelmente sentido pelo público, foi verbalizado pela
promotora responsável pela acusação de Max Keenan:
"Não sabia que ela podia rir".
Choque e desespero
No penúltimo episódio
da 3a temporada, eles se envolvem na investigação de assassinato de
um personal trainer que almejava ser cantor profissional. Entre os
possíveis suspeitos esta "Pam Gorda", diagnosticada pelo
Dr. Sweets como alguém com tendência a fantasiar relacionamentos e
se tornar uma perseguidora obsessiva do objeto de seu desejo.
Por descuido, ela se
conecta emocionalmente ao agente Booth e passa a ver a Dra. Brennan
como uma rival.
Essa obsessão faz com
que a moça tente matar a antropóloga no final do episódio em um
momento de descontração da equipe do Jeffersonian junto com com o
agente Booth. Mas Seeley se põe entre a atiradora e sua parceira. A
expressão facial e o tom de voz não deixam dúvida de que a
cientista sente desespero por estar prestes a perder seu companheiro,
devido à profunda ligação emocional. No início do último
episódio, Temperance relembra o que acredita ser a morte de Seeley
e se recusa a ir ao funeral dele, ate Angela convencê-la.
A interpretação
espírita
É comum dizer-se no
meio espírita que o desenvolvimento espiritual é como um pássaro
cujas asas são a moral e o intelecto. E que nós escolhemos
desenvolver uma das "asas" em detrimento da outra por nosso
livre arbítrio, até que a Lei de Ação e Reação nos obrigue a
equilibrá-las.
É uma interpretação
simplista da evolução espiritual, pois assim como temos múltiplos
papeis sociais, as vezes independentes, as vezes interligados, o
mesmo acontece em nossa trajetória espiritual. E um desses fatores
é, certamente, o desenvolvimento emocional.
Há sentimentos e
características morais que nos garantiram a sobrevivência quando
estávamos nos primeiros estágios da evolução humana, como o
egoísmo, o medo e a raiva, mas acabaram se tornando freios
evolutivos à medida que desenvolvíamos nosso senso moral e
intelectual. Surgem o altruísmo, a coragem e a serenidade, por
exemplo.
Mas o processo de
substituição dos sentimentos primitivos por outros, mais
sublimados, é contínuo, mesmo que às vezes pareçamos não ter
sido tocados quando nos são apresentados.
É como um cabo de
guerra no qual os participantes são desiguais a princípio, mas
começam a surgir impasses e troca de times. Até que o último
sentimento negativo se vê isolado e perdendo campo, exigindo uma
transformação.
Conclusão
Como vemos, Temperance
Brennan tem os sensos moral e intelectual desenvolvidos, mas o
emocional atrofiado no início da série.
Ao longo dos episódios,
Seeley Booth age como seu "personal trainer emocional" ate
o momento em que eia terá condições de se conectar com outro ser
humano, como já fez com o agente, sua equipe no Jeffersonian, seu
pai e seu irmão.
À cientista, ao
contrário dos psicopatas retratados no cinema e na televisão,
falta a capacidade de se socializar, que ela aprende a cada caso que
nos é apresentado, e não uma incapacidade inata de ter sentimentos.
É como se dentro do
bloco de gelo emocional houvesse sementes variadas esperando as
condições adequadas para germinar e florescer.
Mas fica uma pergunta:
a Dra. Brennan vai, em algum momento, passar a deixar sobressair sua
nova faceta emocional?
Acredito que não,
pois se trata de um adulto com a personalidade formada, mas aberto a
mudanças. Seu lado racional continuará a sobressair, mas com essa
nova nuance.
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