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domingo, 1 de setembro de 2013

Bones: o florescimento emocional*

Análise da evolução emocional de Temperance Brennan até o fim da 3a temporada



Segundo o Almanaque dos Seriados (Paulo Gustavo Pereira, Ediouro, 2008), Arquivo X foi o primeiro programa com um casal de protagonistas a inverter as características psicológicas de cada um. Normalmente, o homem simboliza a racionalidade e o pragmatismo, enquanto a mulher representa a emoção, a intuição e a fé. Pode-se dizer, então, que Bones, um seriado policial, segue essa diretriz. O agente Seeley Booth representa a emoção e a antropóloga Temperance Brennan, a razão.

A Dra. Brennan, também chamada de Bones (“Ossos”), começa o seriado como uma cientista super racional, que chega a interpretar o que os outros dizem ao pé da letra.

O convívio com o agente Booth ajuda-a a assimilar as nuances da psicologia humana, e por consequência dos relacionamentos pessoais.

No episódio de estréia, ela poderia passar por um bloco de gelo emocional a serviço da Justiça. Ao longo da série, a conhecemos um pouco melhor e descobrimos os traumas que a tornaram emocionalmente distante: o desaparecimento dos pais, ser abandonada pelo irmão e a passagem pelo sistema de adoção norte-americano.

O momento da virada (ou começo do degelo) é no episódio em que a antropóloga reencontra seu mentor e ex amante, descobrindo que terá que confrontá-lo no tribunal. Devido à linguagem técnica e aparente frieza com que depõe, em contraponto com o charme e simpatia de seu professor, a promotoria pode perder o julgamento.

O agente Booth conta ao promotor sobre o desaparecimento dos pais e a acusação usa isso para humanizar a antropóloga, estratégia que dá certo. Mas ao custo do rompimento da amizade entre o professor e sua aluna, devido a um comentário infeliz deste (que poderia ser verdadeiro em relação a relações pessoais, mas não quanto a sua conduta profissional). E a primeira emoção demonstrada claramente é a raiva.

A partir daí, Temperance Brennan passa a demonstrar mais seus sentimentos. Na série, ela começa a sorrir, chorar (como quando ela mata uma pessoa pela primeira vez) e a brincar (em um episódio de Dia das Bruxas, Temperance se fantasia de Mulher Maravilha e faz o rodopio característico da personagem no final).

A descoberta dos ossos de sua mãe inicia um processo de busca pelo resto de sua família. A dra. Brennan tem oportunidade de se reconciliar com seu irmão, Russ. Surgem revelações no caminho, como a de que seus pais são criminosos procurados e o nome verdadeiro dela e outro

Quando finalmente Temperance encontra o pai, a mágoa por ter sido abandonada fala mais alto durante um longo período, no meio do qual Max Keenan se deixa prender para ficar próximo da filha.

Apesar de todo esse processo de desabrochar das emoções, a Dra. Brennan tem um lado racional muito forte, caracterizado pelo bordão "antropologicamente falando...", onde ela se põe a margem do cenário que descreve, especialmente se ela se sentir emocionalmente envolvida.



A parceria Brennan-Booth

O agente especial Seeley Booth não chega a ser um homem emotivo no sentido piegas do termo. Profissionalmente, ele tem o que se pode chamar de conhecimento da natureza humana e das técnicas de interrogatório.

Pessoalmente, ele tem um vínculo emocional muito forte com seu filho, Parker. Além disso, Booth constrói uma relação de parceria com Brennan, apesar de suas idiossincrasias.

Ele a ajuda a compreender e expressar o emaranhado de sentimentos e emoções humanos. Sua relação evolui de uma parceria puramente profissional para a amizade, e daí para o relacionamento amoroso.

Já a partir da primeira temporada surgem sinais disso, como as insinuações da amiga e colega de trabalho, Angela Montenegro, e de diversos personagens que aparecem ao longo da série, perguntando se ambos são namorados ou fizeram sexo. A ênfase com que ambos negam o envolvimento emocional só ressalta o quanto estão atraídos um pelo outro, num nível ainda subconsciente.

Quando o FBI ameaça desfazer a parceria, os dois são obrigados a fazer um tipo de terapia de casal ou "terapia de parceiros", devido a prisão do pai de Temperance por Seeley.

O terapeuta, Dr. Sweets, os faz responder questionários e participar de um encontro de casais.

No primeiro, Bones esconde de seu parceiro o preenchimento, como um aluno que que quer impedir que o colega cole dele. Ao final, eles descobrem que complementam um ao outro (como o público já percebeu).

O episódio do encontro de casais não acaba bem para o psicólogo, mas ajuda a estreitar os laços já existentes entre a dupla.

No especial de Natal da 3a temporada, Max Keenan quer passar o feriado com a família. A Dra. Brennan tem outros planos. Enquanto isso, o agente Booth esta chateado porque irá passar o Natal sem o filho. Entre idas e vindas, o agente do FBI consegue passar o Natal com Parker e a antropóloga resolve passá-lo com a família, não importando que o pai e o irmão estejam na prisão.

A árvore natalina, proibida no presídio, é levada por Seeley Booth e seu filho ate em frente da janela onde esta sendo realizada a festa dos Brennan-Keenan. Ela simboliza, para a dupla, um buquê de flores oferecido por um namorado.

Após esse episódio, Temperance, além de sorrir, passa a rir. Mesmo depois de analisar sua evolução emocional, para mim foi um choque, independente das circunstâncias. Chega-se a pensar que ela estivesse sob o efeito do vazamento do gás do riso ao se aproximar do esqueleto. A esse choque, provavelmente sentido pelo público, foi verbalizado pela promotora responsável pela acusação de Max Keenan: "Não sabia que ela podia rir".



Choque e desespero

No penúltimo episódio da 3a temporada, eles se envolvem na investigação de assassinato de um personal trainer que almejava ser cantor profissional. Entre os possíveis suspeitos esta "Pam Gorda", diagnosticada pelo Dr. Sweets como alguém com tendência a fantasiar relacionamentos e se tornar uma perseguidora obsessiva do objeto de seu desejo.

Por descuido, ela se conecta emocionalmente ao agente Booth e passa a ver a Dra. Brennan como uma rival.

Essa obsessão faz com que a moça tente matar a antropóloga no final do episódio em um momento de descontração da equipe do Jeffersonian junto com com o agente Booth. Mas Seeley se põe entre a atiradora e sua parceira. A expressão facial e o tom de voz não deixam dúvida de que a cientista sente desespero por estar prestes a perder seu companheiro, devido à profunda ligação emocional. No início do último episódio, Temperance relembra o que acredita ser a morte de Seeley e se recusa a ir ao funeral dele, ate Angela convencê-la.



A interpretação espírita

É comum dizer-se no meio espírita que o desenvolvimento espiritual é como um pássaro cujas asas são a moral e o intelecto. E que nós escolhemos desenvolver uma das "asas" em detrimento da outra por nosso livre arbítrio, até que a Lei de Ação e Reação nos obrigue a equilibrá-las.

É uma interpretação simplista da evolução espiritual, pois assim como temos múltiplos papeis sociais, as vezes independentes, as vezes interligados, o mesmo acontece em nossa trajetória espiritual. E um desses fatores é, certamente, o desenvolvimento emocional.

Há sentimentos e características morais que nos garantiram a sobrevivência quando estávamos nos primeiros estágios da evolução humana, como o egoísmo, o medo e a raiva, mas acabaram se tornando freios evolutivos à medida que desenvolvíamos nosso senso moral e intelectual. Surgem o altruísmo, a coragem e a serenidade, por exemplo.

Mas o processo de substituição dos sentimentos primitivos por outros, mais sublimados, é contínuo, mesmo que às vezes pareçamos não ter sido tocados quando nos são apresentados.

É como um cabo de guerra no qual os participantes são desiguais a princípio, mas começam a surgir impasses e troca de times. Até que o último sentimento negativo se vê isolado e perdendo campo, exigindo uma transformação.



Conclusão

Como vemos, Temperance Brennan tem os sensos moral e intelectual desenvolvidos, mas o emocional atrofiado no início da série.

Ao longo dos episódios, Seeley Booth age como seu "personal trainer emocional" ate o momento em que eia terá condições de se conectar com outro ser humano, como já fez com o agente, sua equipe no Jeffersonian, seu pai e seu irmão.

À cientista, ao contrário dos psicopatas retratados no cinema e na televisão, falta a capacidade de se socializar, que ela aprende a cada caso que nos é apresentado, e não uma incapacidade inata de ter sentimentos.

É como se dentro do bloco de gelo emocional houvesse sementes variadas esperando as condições adequadas para germinar e florescer.

Mas fica uma pergunta: a Dra. Brennan vai, em algum momento, passar a deixar sobressair sua nova faceta emocional?

Acredito que não, pois se trata de um adulto com a personalidade formada, mas aberto a mudanças. Seu lado racional continuará a sobressair, mas com essa nova nuance.


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